domingo, 5 de fevereiro de 2012

Meus dias...

Hoje é um daqueles dias onde paro e penso "Será que estou no caminho certo? Será que está certo tudo o que faço?"
Me deixa muito feliz quando chega o final do dia e eu estou exausta do trabalho, de cuidar do meu pai e das minhas dogs. Quando estou esgotada do trabalho pesado na firma do meu pai, quando estou cansada de ter que limpar a casa dele, me preocupar com o estado de saúde dele e acariciar sua  cabeça sentindo o ardor de álcool que exala de seu corpo. As vezes sinto muito medo, de que ele possa me machucar com palavras, por não controlar o que fala, mas mesmo assim me deixa feliz por estar ao lado dele.
Quando o dia vai se encerrando eu me lembro que na favela próximo a avenida líder tem uma peluda aguardando ansiosamente a minha chegada com ração e remédio para sarna, com muita alegria me preparo para encontrá-la e ver sua alegria pulando em mim e sujando a minha roupa limpinha, mas ao ver a marca de lama na minha calça jeans isso reflete de que uma vida, um sentimento, uma respiração me tocou. Ela sabe que eu estou ali para ver sua felicidade e seu bem. Depois de medicá-la, deixar comida com uma das moradoras da favela, me despeço da senhorita cachorra e deixo avisada que voltarei na semana seguinte. Me despeço dos "manos do pedaço" e meio insegura vou embora, rezando para que Deus me proteja (pois próximo a essa favela eu já fui assaltada), ironia do destino, rsrsrs.
Ok...outro dia se inicia e todo o trajeto é refeito, mas no final do dia não tem mais a senhorita cachorra me esperando, pois ela sabe que eu retornarei na outra semana, tem uma senhora de 86 anos que não vê quase nada, apenas sombras. Vou até sua casa, abro o portão e seus cachorros começam a latir e pular em cima de mim, como que dizendo:
_Dona Antônia, tem visita, tem gente!!
E eu vou adentrando sua casa e falando:
_Sou eu Dona Antônia, a Beth! Dona Antônia?
Sento-me em sua sala e falamos de tudo, de sua saúde, seus cachorros, seu marido falecido e na maioria das vezes de minha mãe. De como ela era boa e preocupada com todo mundo!
As vezes eu levo alguma coisa para a Dona Antônia comer, as vezes me ofereço para lavar a louça, aquecer o almoço, colocar comida para ela ou até limpar a sua casa. Enfim...tento fazer o que está ao meu alcance.
Mais um dia se encerra e lá me vou para guarulhos, para o meu refúgio, o meu cantinho e o meu aconchego me despeço dela e digo que assim que possível eu volto para ver como ela está! Ou para ficar com ela se ela não estiver se sentindo bem.
A noite cai e o que eu mais quero é poder dormir, pois as minhas boas energias foram gastas e distribuídas para aqueles que precisam.
Olhe hoje é terça feira, é o dia em que eu vou encontrar o meu amigo de 41 anos de idade, o meu melhor amigo, aquela pessoa em que eu confio, em que eu deposito toda a minha esperança, aquele que me fez ver que tudo é possível.
Então refaço o meu percurso do dia e quando o dia está se encerrando, eu pego a minha mochila e vou para o metrô, rumo ao hospital do servidor público municipal. Fico esperando o Clerson chegar e quando ele chega nós fazemos o nosso ritual (rs), vamos para a lanchonete comer e conversar MUITO antes de atendermos. Depois de nós falarmos tudo um para o outro, está na hora de vestirmos o nosso jaleco de doutores e atender as pessoas que precisam.
Vamos até onde ficam as chaves e pegamos aquela que abre a sala dos voluntários, subimos até o último andar onde eu morro de medo de fantasmas, sempre saio correndo e o clerson ri da minha cara (rsrsrs), pois lá é um deserto total. Nós vamos para a sala e cuidadosamente trocamos de roupas tiramos as roupas de ELISABETH e CLERSON e colocamos as roupas de Dra. Pulguinha Colorida e Dr. Miojo Pena Branca, delicadamente nos maquiamos e por último o nosso nariz vermelho, onde naquele momento tudo se transforma e nossos corações e nossas mentes estão prontos para entrar em ação. Nós nos abraçamos e pedimos a Deus para que nos leve ao lugar certo, para que atendamos aquela pessoa desesperada, ou aquela que está com medo e que tenhamos as palavras certas no momento certo, rezamos e damos um suspiro bem fundo (VAMOS LÁ).
Brincamos com os funcionários, pacientes e acompanhantes... conversamos com as vovós e vovôs e muitas vezes nós falamos:
_Estamos aqui com você!!
Um dia é ruim demais, o outro é muito bom, o outro mais ou menos... e assim nós vamos aprendendo a lidar com a morte, com a tristeza, com a alegria, com choros, esperanças, com a fé e principalmente com a vida que nos rodeia. Nós aprendemos a sermos humanos, aprendemos que somos iguais e que igualdade é o que nos torna cidadãos.

Acho que o que me deixa muito feliz, me preenche e me deixa SATISFEITA é fazer amigos, fazer o bem, poder ajudar e ser ajudada. Pois essas pessoas me ensinam e me ajudam a evoluir como pessoa.
Sou feliz por ter milhares de pessoas a minha volta! Obrigada por fazer parte da minha vida e da minha história!!
Assim encerro mais um dia...